O dia não estava muito quente, nem parecia que o verão havia chegado já há alguns dias. Ela não sabia se isso era bom ou não. Era fato que a idade trouxera também uma intolerância ao calor, e poder sair de casa sem uma temperatura aterrorizante poderia ter seu lado positivo. Mas onde estava o positivo, o negativo? Onde estavam as coisas que faziam alguma diferença? Nada mais havia de forma a fazer diferença. Tudo agora era uma repetição entediante de tudo o que um dia já teve sua graça.
E foi perdida naqueles pensamentos que também não faziam a menor diferença, que ela partiu para comprar alguns daqueles itens que uma casa não fica sem, a começar pelo talvez mais urgente e imprescindível deles, o papel higiênico.
Perambulando pelos corredores da pequena vendinha de bairro, nada parecia lhe apetecer muito. Com poucos, ou nenhum desejo a saciar, a sacola voltaria com exatamente o necessário previamente diagnosticado.
E o vazio da sacola parece se misturar ao seu.
Conta paga, ela tenta se animar para umas voltas sem destino. Como a idéia não conseguiu resistir, o caminho de volta foi tomado. Por alguns segundos, ao aguardar de um sinal verde de pedestres, ela se distrai com um desenho no muro, do outro lado da rua.
Sinal aberto. Um pouco por osmose, outro por um esbarrão, e ela começa atravessar a rua e pisando em falso, cambaleia um pouco até não mais resistir e... Ir ao chão tendo suas parcas compras espalhadas. Um alguém recolhe suas compras, outro alguém lhe ajuda a levantar perguntando se ela estava bem, no que ela responde, tchau. Enfim sem pensar muito, e talvez por isso mesmo deixando escapar o que de fato era o seu desejo.
2 comentários:
Loira, por partes: sem palavras - só sentimentos; dolorosamente lindo...
Tem horas que sinto uma força assim, que vem de dentro, um estralo, uma sacudida, um nada...
Um chão que falta, um ar que foge, um fogo que arde, uma ausência de nada ou de tudo, um suor frio que arranha feito ácido e uma vontade de ceder... De soltar e sucumbir ao chão, a este sentimento que não entendo, a este minuto de redenção, de desistência... Mas acho que antes de chegar no chão o vento gelado me acorda e atravesso a rua. As vezes vem comigo, outras deixo lá.
Sei lá, bateu em mim assim.
Beijos
Ai Sheila Amada,
Sofri ao escrever e lendo seu comentário chorei de novo...
Te amo muito e sinto imensa saudades.
Beijo grande,
Ulla
Postar um comentário